Talvez saibamos voar – A escola – Parte 1

– Olá, boa tarde. Tudo bem?

– Sim, estou. E você?

– Não sei. As coisas se fizeram um pouco confusas nestes últimos tempos. É como se o certo se tornasse errado e o errado tivesse cheiro de certo. Além disso, absolutamente tudo que um dia foi pensando tem se materializado de forma bem diferente de como foram concebidas. Talvez, a melhor resposta que eu tenho para você, neste momento, é: não, não estão bem.

– Entendo.

Era o primeiro dia de aula do último ano do colegial e foi esta fala que deu início a demorada conversa entre dois grandes amigos, Carlos e Hugo, que já se conheciam há bastante tempo. Sentados numa pequena escada que levava à caixa d’água da escola, próxima da sala de aula daquele ano, enquanto esperavam a chegada do professor de sociologia, tiveram a oportunidade de falar um pouco mais das suas vidas, um para o outro.

Não diferente da maioria dos jovens, estes garotos carregavam marcas deixadas pela dura batalha da vida, embora a pouca idade. Se não fosse na família o problema, este estaria na dificuldade financeira para seguir com os sonhos e não ter condições de escolher o que ser “quando crescer”. Porém, ambos tinham uma mesma dificuldade: encontrar alguém com quem pudessem falar abertamente dos seus sentimentos, sem medo de serem julgados ou que esta abertura demonstrasse fraqueza.

Mesmo com grande diferença de personalidade, um encontrava no outro o irmão que nunca tiveram. Hugo era filho único e Carlos, embora membro de uma família de 5 irmãos, não se sentia um deles, por ser adotado.

Talvez foi o sofrimento compartilhado, cada um com seus “ingredientes” e medidas diferentes, mas de forma avassaladora e semelhante que fortaleceu esta amizade, surgida de uma discussão num jogo de futebol em uma das aulas de educação física no primeiro ano do ensino ginásio.

– Hugo, cara, te falar que tudo ficará bem talvez só aumente o teu estresse. É assim comigo, também. Mas, infelizmente não sei o que dizer pra te ajudar, além, é claro, de que estou aqui pra apoiá-lo. Ofereço meu ombro amigo sempre que precisar conversar. A vida, infelizmente, não trabalha segundo as nossas normas. Ela tem as dela e é bem autônoma quanto isso. É uma pena pra nós.

– Não é fácil seguir em frente quando são impostas inúmeras dificuldades no nosso caminho, sem que a gente entenda o porquê de que aquilo está acontecendo conosco. Eu ando um tanto quanto farto de tudo isso. De sonhar e logo ser acordado com um banho de água fria jogada por alguma peripécia do destino. Cansado, por assim dizer, de tudo.

– Bola pra frente. De nada adianta ficar parado, esperando que a vida se encarregue de fazer as coisas que devemos para mudar de vida. Não é fácil, mas possível. Não existe aquele ditado de que santo não é o que nunca cai, mas aquele que sabe levantar? Vamos mudar um pouco este texto para: herói não é quem nunca fracassou, mas aquele que, consciente de suas fraquezas, segue superando-as.

Esta conversa se prolongou por mais um pouco tempo, porque logo chegou o professor de sociologia chamando a todos para entrar e assistir a aula. Antes de se juntar aos demais, Hugo passou a mão nos seus olhos para se certificar de que as lágrimas que ensaiaram sair, não iriam ficar à mostra pra seus novos, ou nem tanto assim, colegas de classe. Aproveitando a oportunidade, com um sorriso debochado no rosto, Carlos brincou com seu amigo:

– Não vai pegar bem, se logo no primeiro dia você já ganhar o apelido de chorão. Enxuga isso e vamos lá ocupar nossa cabeça com outras coisas. Bons tempos estão vindo.

O primeiro dia de aula é sempre diferente. Os professores pedem que cada aluno faça sua apresentação, contando um pouco sobre o que fazem, quem são seus pais, seus desejos, seus sonhos. Neste ano, o roteiro não foi alterado. As perguntas foram todas feitas como o de costume e por ser este o último ano no colegial daquela classe, ou pelo menos daqueles que se esforçassem, o professor pediu para que falassem também, quais as profissões desejariam seguir.

A turma era composta por 35 alunos, 15 meninos e 20 meninas, e foi organizada em forma de círculo, todos em pé, para o momento das apresentações. Naquela ocasião, a turma estava completa, com seus 35 componentes. Por suposto, presentes movidos pela ansiedade em iniciar o término de um ciclo muito importante.

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