Talvez saibamos voar – A escola – Parte 2

A maioria dos alunos, a maioria absoluta com certeza, já se conhecia e por isso, os grupos ou panelinhas, que seja,  já estavam previamente moldados. O grande círculo na verdade, estava fragmentado em grupinho formados por pessoas que possuíam maior afinidade, o que é normal na vida social do ser humano. Talvez 4 ou 5 grupinhos. O número não importa, vez que mesmo com esta segregação, havia um grande entrosamento de forma geral.

– Olá! Acho que todos já me conhecem, mas vou me apresentar novamente – disse, a menina, sorrindo.  Meu nome é Ângela e moro aqui, na rua de cima – continuando a sorrir, como se estivesse fazendo chacota da obrigação de ter que se apresentar pra pessoas com quem já convivia há anos – e para ser sincera, ainda não sei o que farei depois da escola. Talvez ir pra casa.

Todos começaram a rir com a brincadeira feita.

– Ok, Ângela, obrigado pela apresentação. Agradeceu o professor, também com uma meio-risada estampada no seu rosto.

– Minha vez, professor? Falou o colega imediatamente do lado direito da colega.

– Sim, é a sua. Pode ser a sua vez. Seu nome, onde mora, seus pais e o que quer fazer. Respondeu.

– Oi! Chamo-me Artur, moro próximo à praça, tenho 17 anos e meus pais são Aline e Pedro da padaria. Prestarei vestibular para Zootecnia e Veterinária. Vamos ver no que dá…

Assim como Ângela e Artur, Carlos e Hugo se apresentaram. Os demais colegas, também. Alguns disseram que queriam ser médicos, outros engenheiros, alguns farmacêuticos e outros, professores. Dois ou três, disseram pensar em fazer direito e um, disse que queria seguir a vida religiosa, o que surpreendeu muitos que estavam lá.

Assim como Ângela, mais jovens disseram ainda estarem perdidos quanto ao que fazer no futuro. Hugo, no entanto, embora indeciso queria fazer algo, porém os recursos financeiros impediam de sonhar e sua resposta foi que não faria nada por um tempo. Carlos há muito se decidiu pela Odontologia e tinha dinheiro para fazer isso.

Tocou o sinal para o intervalo! Chegada a hora, talvez, mais esperada pela maioria esmagadora, afinal de contas, era este o momento de reencontrar muitos dos amigos que já não se via há muito tempo e poder, finalmente, conversar um pouco sem se preocupar com o professor cuja chegara era iminente.

Nossos dois personagens apresentados logo no início eram amigos dos primeiros a falar durante a introdução da aula de sociologia. Hugo, Ângela, Carlos e Pedro, já estudavam juntos há cerca de 8 anos. Ou seja, desde a quinta série. Os quatro, formavam um dos pequenos grupos que compunham o grande mosaico daquela turma sempre lembrada pelos professores. Embora muito ligados, cada um era dono de características fortes.

Como era de costume, todos foram para o final do refeitório conversar. Os primeiros a chegar foram Pedro e Carlos, depois Hugo. Ângela foi a última, porque estava conversando com outras meninas com as quais também formava um outro grupinho paralelo. Viva e sempre contente, correu, sem vergonha e sem modos, em direção do quase clube do bolinha.

Talvez na sua imaginação estivesse prestes a fazer uma sequência de salto duplo carpado com dupla pirueta, assim como fazem as ginastas brasileiras em grandes competições… mas, o que conseguiu foi dar um saldo para sobre os pequenos muros de concreto, feitos para servirem de cadeira, e depois se jogar nos braços de Carlos. Foi algo muito desengonçado e esquisito, tal como de costume. Talvez por isso, sempre foi querida por seus colegas.

– Meninos, que saudade! Muito ruim ficar longe de vocês por dois meses. Fico imaginando agora, depois que terminar as aulas de vez. Como irei sobreviver? Você, Pedro, que será veterinário, saberia me dizer? Disse Ângela, arrancando gargalhadas dos seus três amigos.

– Vivendo, Anja! Respondeu Pedro. E acrescentou: – Talvez você possa ir no meu consultório para algumas consultas.

– Uma excelente opção, disse Angela, concordando e sorrindo.

A conversa animada entre os que acabaram de ser reencontrar continuava. Entre gargalhadas escandalosas da garota e sorrisos mais contidos do futuro zootecnista ou veterinário talvez, assuntos mais arrojados entravam em cena, costumeiramente promovidos por Carlos, quem sempre manteve uma relação bem estreita com o exercício de pensar no porquê de tudo.

Perguntas do tipo “sem noção” deram espaço totalmente as questões existenciais do tipo: “quem sou?”, “de onde vim?”, “qual o meu sentido”, dentre outras tão comuns para quem ainda não se encontrou na vida.

– Vocês já pararam para pensar em como estarão nos próximos 5 anos? Tenho me feito esta pergunta com muita frequente.

– Eu também, Hugo. E cada vez mais me dou conta de que não somos mais crianças, ou melhor, adolescente que suas únicas preocupações são as atividades da escola e os desenhos e filmes para assistir. O peso da responsabilidade está chegando e trazendo um fardo considerável a carregar. Concluiu, Carlos.

Todos deram uma pequena pausa, meio que trocando olhares, mas foram logo interrompidos por um suspiro forte de Ângela, que alertou sobre a necessidade de encargar com naturalidade o que a vida lhes proporia a partir deste momento.

– É, pessoal… Mais responsabilidade, mais escolhas difíceis e também renúncias. Mas isso chega pra todo mundo. Não somos especiais e devemos seguir em frente apenas, tentando tomar as melhores decisões e lutar pelos nossos sonhos.

– Concordo contigo! É isso ai. Agora, vamos que o sinal vai tocar. Disse, Hugo.

O primeiro dia foi muito bom. Durante o ano, nem tanto assim. O sentimento de “está acabando” judiou muito de todos os 35 do 3ºA e por entre agosto e outubro, a ansiedade pelo novo era incontrolável. Encontrar os amigos era ótimo, difícil mesmo era assistir as aulas. Pior ainda, garantir-se nas provas. De todo modo, era divertido. Paradoxal, mas verdadeiro.

Chegou dezembro e tudo ocorreu normalmente. Terminou dezembro e com ele, a condição de plateia dos nossos personagens. Agora, a vida de fato começou. Os sonhos ou sairiam de status de sonhos para realidade ou se estagnariam se tornando em frustrações. Cada um tinha as rédeas do seu próprio destino, embora com graus de dificuldades diferentes, mas deveriam seguir. E seguiram…

[CONTINUA]

Imagem: pixabay.com

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