Vamos conversar: Virna Menezes

Hoje vamos contar uma pouco da história e conversar com uma amiga que fiz num dos rolês em Roma (oh, doce Roma). Ela é quase uma economista, natural da capital cearense, Fortaleza, e morou por um tempo em Lyon, na França, onde também estudou por um semestre. Prezados, ela é a Virna.

Depois do seu tão empolgante intercâmbio em terras francesas, resolveu dar umas escapulidas pelos países vizinhos, na tentativa de ficar mais encantada do que já era com o continente que a acolheu. E não é que conseguiu?!

Numa dessas viagens nos conhecemos, justamente no melhor hostel que fiquei durante o meu mochilão de Janeiro. Foi lá no Meting Pot Roma, um recomendável albergue. Enquanto ela conversava com outro hóspede, me intrometi no diálogo, tentando ser um cara social e legal, quando o recepcionista alertou que eu, assim com ela, era brasileiro.

Arquivo pessoal
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Paramos, olhamos um pro outro bruscamente saltando do inglês para o nordestinês. Sério? De onde? E para nossa grata surpresa, um do lado do outro, ambos éramos do amado nordeste. Ela de Fortaleza e eu, de Recife. Então, num passe mágica Roma se tornou mais alegre do que já era, e voltei a me sentir em casa, porque mais alguém naquele lugar do mundo sabia o significado de “moco”, “malamanhado”, “mangar”, etc.

Veja também a conversa com Cinthia Casimiro

Bom, vamos conhecê-la melhor.

Virna, tudo bem? É um prazer falar contigo depois do nosso encontro em Roma e reencontro em Fortaleza. Eu gostaria que você falasse um pouco sobre você. Seus gostos, seus sonhos, o que você tem feito, o que você estuda. É possível?

Oi, Paulo! O prazer é meu! Falar com você me lembra sempre porque eu amo viajar. São esses encontros em locais especiais, como Roma, que fazem cada viagem valer a pena. Bom, como você disse, me chamo Virna e moro em Fortaleza. Tenho 21 anos, estudo economia, e sou apaixonada por viagens, línguas, culturas, história, gastronomia, etc. Sempre soube da importância de se conhecer novos lugares, viver outras realidades, e aprender com experiências diferentes em cada lugar que passamos. Por isso procurei, desde nova, viver isso sempre que possível. Fiz um intercâmbio de um ano nos Estados Unidos em 2010, quando tinha 15 anos, e desde então só tenho mais vontade de explorar o mundo. Essa viagem mudou todas as minhas perspectivas de vida e me inspirou a trilhar um novo caminho, que é o que faço agora. Foi por conta dessa experiência que hoje pretendo seguir na área de Economia Internacional ou Relações Internacionais. Viagens podem mudar e influenciar inúmeras coisas em nossas vidas se soubermos aproveitar o que elas podem nos proporcionar. Não sei se seria um sonho, mas pretendo morar fora novamente, em breve. E dessa vez por tempo indeterminado. Ainda não tenho um destino, mas quero explorar novos lugares, novas culturas, e matar a saudade que eu tenho de viver num lugar completamente diferente, que te surpreende todos os dias. Por enquanto, continuo meus estudos em Economia e pretendo me formar em breve. E aí veremos para onde irei! hahahahaha

Arquivo pessoal
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Você esteve um tempo considerável fora do Brasil, mais especificamente na França. Do que você sentiu mais falta e o que você não sentiu de jeito nenhum, vivendo fora do país onde você nasceu e se criou? Existe muita diferença entre Brasil e França?

Senti uma falta enorme das pessoas. Não só dos meus amigos, familiares, mas do brasileiro. A gente tem um povo, em sua maioria, muito acolhedor, feliz, e sensível. Digo sensível porque, na França, percebi uma falta de humanidade muito grande. Não no sentido de serem frios ou cruéis, mas por se comportarem de forma muito fechada, sem esboçar qualquer reação com o que se passava ao seu redor. Foi algo que reencontrei na Itália e fiquei muito feliz! Lá, se algo engraçado acontecia no metrô, as pessoas riam e comentavam. Se algo assustava, as pessoas expressavam surpresa. Era uma realidade mais próxima da minha. Também senti muita saudade da minha universidade, mas vou falar mais disso na próxima pergunta. Fora isso, o usual. Saudade da minha família, dos meus amigos, minha cachorra. Hahahaha Mas nada que não desse pra suportar.

A França é um país muito bacana. Sempre digo que não tem muito a ver comigo, mas eu gosto muito de lá. Tem uma arquitetura fantástica, cidades lindas, e o povo francês está longe de ser esse poço de frieza e ignorância que todo mundo fala. Obviamente, eles não são abertos como nós, mas são simpáticos e amigáveis sim. Uma coisa que foi muito comentada entre os meus amigos brasileiros é que é quase impossível ficar amigo de verdade de um francês. As coisas ficam mais na base do coleguismo, mas há felizes exceções.

O que não senti falta de jeito nenhum lá, e sinto agora aqui, foi o transporte público e mobilidade urbana em geral. Lá me sentia mais livre pra sair na rua, de ônibus, metrô, tram ou a pé. Aqui as opções são limitadas, de baixa qualidade, não há segurança, e a cidade é infinitamente maior que Lyon (a terceira maior cidade francesa). Por tudo isso, foi bem difícil sair de uma realidade onde se podia ir pra qualquer lugar a pé, e voltar pra cá. Sinto falta também dos queijos baratos e da gastronomia maravilhosa. <3

Quando você foi pra França, foi por meio de um intercâmbio acadêmico. Certo? Você notou muita diferença entre o sistema de ensino de lá e o do Brasil? Se sim, para melhor ou pior? E o que exatamente era diferente? Qual foi o programação pelo qual você conseguiu bolsa? Era bolsa?

Certo. Fui por meio de um convênio entre a minha universidade (UFC) e a universidade de Lyon (Lyon 2). Para esse tipo de intercâmbio, não existe bolsa, então fui por minha conta. Lá consegui um emprego de babá e deu tudo certo. Hahahaha

Quanto à universidade, para mim esse foi o ponto fraco do intercâmbio. Acho que isso é uma questão mais pessoal. Existe uma diferença enorme na estrutura do curso na minha universidade no Brasil e na universidade francesa. Aqui, o curso tem mais a ver comigo. Lá, achei a estrutura um pouco desorganizada, e algumas das principais matérias da minha universidade de origem não existiam no curso de graduação da universidade francesa, além de ter um foco maior em gestão. No entanto, sei que a estrutura francesa agradaria vários colegas de curso. Já as aulas ocorriam uma vez por semana (no Brasil, são duas) em um grande auditório e não existia chamada. Havia, também, outra modalidade de aula que ocorria em uma sala menor, com menos alunos, e era baseada em trabalhos contínuos que deveriam ser entregues ao professor. Na primeira modalidade, existia apenas uma prova no final do curso.

Já uma semelhança bastante forte entre o Brasil e a França, não só na universidade, mas em qualquer coisa que você tenha que fazer, é a burocracia. Não é a toa que dizem que nós herdamos isso dos franceses. Hahahahahaha

Virna Por Que Viajar 2
Arquivo pessoal

Na Europa, você pode conhecer outros países além da França, devido à facilidade que é transitar entre eles. Qual foi o que você mais gostou e qual cidade específica? Imagino, também, que você tenha vivido algumas experiência legais e outras, no mínimo, curiosas. Poderia contar, pra gente, alguma?

Meu país favorito, sem dúvidas, foi a Itália. Passei dezessete dias lá, fazendo um mochilão, e tive experiências incríveis, conheci pessoas maravilhosas (como você e a Cinthia <3), vi coisas inacreditáveis e, claro, comi comidas deliciosas (um beijo pra pizza napolitana). As cidades que mais gostei foram Roma, Florença e Veneza, mas tenho que ficar com Florença como preferida. É inexplicável. A cidade tem um ar singular, uma história riquíssima (cidade natal dos Médici, mecenas do Michelangelo, Da Vinci e até Galileu), vários museus, igrejas, etc. Acho que só andar por Florença já vale a viagem inteira. Fora da Itália, amei Barcelona e Paris, claro.

Não sei se foi sorte ou muito pensamento positivo, mas não passei nenhum perrengue nas minhas viagens. Por isso só tive experiências maravilhosas. A mais inusitada foi o choque cultural que tive quando um italiano brigou comigo por não falar olhando nos olhos dele. Hahahahahaha. A experiência mais engraçada foi quando me perdi do pub crawl em Barcelona com uns amigos. Fora isso, levo comigo todas as conversas de hostel com pessoas de todos os lugares do mundo, de Turquia a Japão, Argentina e, claro, muito Brasil.

Por fim, quais são as suas expectativas hoje? Você acha que uma experiência no exterior contribui na formação de um jovem? Você recomendaria isso? Se sim, França é uma boa opção? E sobre o Brasil, qual a sua percepção quando retornou e encontrou uma realidade um pouco diferente de quando você havia o deixado?

Hoje, espero me aproximar mais de um mercado de trabalho internacional e trabalhar com algo que envolva diversos países e as dinâmicas do mundo globalizado. Quando viajamos, percebemos como diversas realidades acabam se tornando uma coisa só. Acho importante essa integração entre os países, principalmente no contexto atual, e estudar e trabalhar com isso me parece muito importante para um desenvolvimento pessoal e profissional. Acho que todos deveriam se aventurar em uma viagem, de intercâmbio ou não, e não encarar isso apenas como uma temporada de turismo, mas sim como uma oportunidade de conhecer a realidade do mundo, de identificar o seu lugar nele. É impressionante como a gente percebe o quão pequeno somos ao nos depararmos com tudo isso que existe por aí. E vemos também que existem outras realidades, outras vidas possíveis, o que acaba influenciando os nossos desejos, sonhos, planos. Viver a cultura de outra pessoa nos ensina a respeitar e aceitar as diferenças até dentro do nosso próprio país. Não consigo quantificar nem descrever tudo que aprendi nessa temporada fora, mas sei que voltei alguém melhor, mais tolerante, e mais consciente dos problemas ao redor do mundo. É uma oportunidade de vivenciar o que a gente só ouve falar. No meu caso, por exemplo, a crise migratória na França e o próprio preconceito com os imigrantes mulçumanos foi algo que presenciei no meu dia a dia (principalmente estando lá durante os atentados em Paris). Isso não tem preço.

Apesar das divergências culturais e acadêmicas que citei, a França é um país incrível, com uma língua, cultura, gastronomia e história maravilhosas. Acho que todo mundo deve visita-la pelo menos uma vez. Pensamos muito em Paris, mas existem cidades menores que valem muito a pena serem visitadas. Eu não viajei tanto quanto gostaria dentro da França e pretendo fazê-lo assim que colocar os pés outra vez na Europa. Hahahahaha

Sobre o Brasil, percebi a diferença entre acompanhar as notícias pelos jornais e conviver com elas no dia-a-dia. Em meio a uma crise econômica e política, as coisas pareciam bem mais amenas de longe. Aqui, pude sentir a indignação das pessoas de perto, ver amizades se deteriorando por conta de posicionamentos divergentes, etc. No mais, acho que a adaptação foi bem rápida. A rotina vai engolindo a gente e obriga a retomar o ritmo de antes. Hahahahahaha. Foi bom voltar, mas fica a saudade enorme que sinto das experiências e da vida lá fora.

Quero te agradecer muito, mas muito mesmo por compartilhar um pouco sua história e percepções.

Forte abraço.

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